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Minhas Senhoras e Meus Senhores
É- me profundamente grato contar aqui, nesta prestigiosa Casa de
Portugal, com a presença de V. Exas., honrando este ato de minha
posse como membro efetivo da nobre Academia Luso-Brasileira de Letras.
No entanto, se a honra da presença de tão seleta assistência
é para mim motivo de grande alegria, certo é, também,
que o meu constrangimento não é menor pela circunstância
de não estar habituado a fazer uso da palavra falada, salvo em
pequenas ocasiões de menor relevância. Militando na comunidade
Luso- Brasileira há mais de quarenta anos, sempre procurei ficar
afastado da palavra falada, preferindo, embora sem brilho, a palavra escrita,
pela timidez advinda da dificuldade oratória que me acompanha ao
longo dos anos...
Todo este constrangimento que sinto agora é fruto da bondade e
da nobreza de alma do amigo acadêmico Joaquim Simões de Faria,
meu apresentador, padrinho e paraninfo nesta cerimônia que, com
a sua fulgurante sapiência, conseguiu prender a atenção
de V. Exas. dizendo-lhes algumas modestas coisas que me são afins.
Sejam pois, para o ilustre acadêmico, meus primeiros agradecimentos
pela sua generosidade, pois foi graças à sua influência
e desmedido estímulo, que também passo a fazer parte da
Academia Luso- Brasileira de Letras, onde serei somente uma simples presença,
junto dos demais cultíssimos acadêmicos, que ora saúdo.
Vejo-me, portanto, entre a cruz e a espada: bem ou mal, sinto o dever
de dizer-lhes algo sobre o acontecimento de que estamos participando.
Em ocasião como esta, vale lembrar a frase que escutei há
mais de cinqüenta anos, no Colégio Ulissiponense, em Lisboa,
de um dos meus professores:... " é difícil, mas não
é impossível ". Lembrando o velho e saudoso mestre
e contando ainda com a benevolência de V. Exas., tentarei cumprir
todo o ritual a que estou sujeito na esperança que hão de
perdoar quaisquer desacertos considerando que, mesmo com setenta e três
anos de idade, confesso-me “marinheiro de primeira viagem”.
Faz parte desta solenidade o pronunciamento de algumas palavras sobre
a vida do desventurado Antônio José da Silva - o Judeu, Patrono
da cadeira número 28 da Academia Luso-Brasileira de Letras e fazer,
também, merecidas e justíssimas referências à
digna acadêmica emérita Vera Rudge Werneck que, a seu pedido,
deixou vaga a cadeira patronímica do Judeu, por falta de disponibilidade.
Quer o primeiro, quer a segunda, são dois nomes que merecem o maior
respeito. Começo, então, pelo desditoso Antônio José
-o Judeu, cujo nome, certamente, não será estranho aos presentes,
pois já no curso primário, embora sucintamente, é
citado pelo menos em Portugal.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1705, sob o anátema da Santa
Inquisição, de tão triste e nefanda lembrança.
Seus pais, João Mendes da Silva e Lourença Coutinho, eram
judeus. O pai era advogado. A mãe foi acusada ao Santo Oficio de
professar o judaísmo. Por este crime, ela e muitos outros cristãos-novos
radicados no Brasil foram chamados à Metrópole, por ordem
de João V, e recolhidos aos calabouços de Lisboa. O Dr.
João Mendes da Silva acompanhou a mulher, levando consigo o filho
Antônio José, que ao chegar a Portugal foi matriculado na
Universidade de Coimbra, formando-se em Direito em 1726.
Decorrido pouco tempo de sua formatura, o inteligente jovem, talvez por
incomodar alguém da corte, foi também acusado de judaizar,
o que nunca foi comprovado porque, submetido aos maiores sofrimentos,
negou sempre essa prática e afirmava aceitar Jesus e a Virgem Maria.
Foi alcunhado de Judeu, apenas por ser filho de judeus. Embora em Coimbra
tivesse sido alvo
de vexames, o martírio de Antônio José começou,
verdadeiramente, em 06 de agosto de 1726, quando foi preso no escritório
de seu pai onde diariamente prestava serviço forense. Recolhido
à prisão, sofreu castigos os mais severos e a humilhação
de incorporar com hábito penitencial o auto-de-fé de 13
de outubro de 1726. Quando foi libertado, seu velho pai, ao vê-lo
com os dedos das mãos macerados e outras cicatrizes, caiu nos maços
do filho...Desgostoso, morreu pouco tempo depois...
Antônio José casou com Leonor Maria de Carvalho, portuguesa
da cidade da Covilhã, que conhecia desde criança. Era o
fim do compromisso assumido pelos dois jovens, à cabeceira da cama
da mãe de Leonor, prestes a dar o último suspiro... Mãe
e filha já tinham sido vítimas da Inquisição,
em Espanha, onde Leonor incorporou um auto-de-fé em 26 de Janeiro
de 1727. Este casamento fez crescer as desconfianças dos espiões
do Santo Oficio, como veremos adiante. Desta união nasceu uma linda
menina a quem foi dado o nome de Lourença, uma homenagem a sua
avó paterna.
Nesse tempo, mesmo depois de ter sofrido horríveis padecimentos
físicos e mentais, Antônio José conseguiu impor-se
através de suas "óperas" que lhe proporcionavam
grande fama na sociedade 1isboeta, quer como advogado, quer muito mais
ainda como comediógrafo e poeta. As suas peças caracterizavam-se
pela crítica de costumes, pela sutileza da intriga, pela habilidade
com que retratava o cotidiano da sociedade portuguesa, apontando os vícios
e os erros de todas as classes; e pela variedade de cenários, pelo
maravilhoso desempenho do elenco do qual às vezes, também
fazia parte. Era aplaudidíssimo, pois melhor que ele, só
mesmo o inconfundível Gil Vicente, poeta e teatrólogo do
século XVI, que legou à posteridade quarenta e quatro magníficas
peças teatrais, todas merecedoras dos aplausos, até, dos
reis D.João lI, D. Manuel I e D. João III, cuja vida artística
abrangeu os três reinados. Depois destes dois brilhantes comediógrafos
é que surgiu Almeida Garrett para sublimar mais e mais o Teatro
Português, mas isto só ocorreu na primeira metade do século
XIX.
Antônio José fez a sua primeira apresentação
como comediógrafo em 1733, encenando a "ópera"
A VIDA DO GRANDE DOM QUIXOTE DE LA MANCHA E DO GORDO SANCHO PANÇA,
no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, que constituiu uma enorme consagração!
Foi, sem dúvida, devido a esta apoteótica manifestação
que Antônio José se dedicou a compor e a apresentar novas
peças, como: ESOPAIDA OU VIDA DE ESOPO, em 1734; ENCANTOS DE MEDEIA,
em 1735: ANFITRIÃO E LABIRINTO DE CRETA, ambas em 1736; GUERRAS
DE ALECRIM E MANJERONA E AS VARIEDADES DE PROTEU, as duas em 1737; e a
última, PRECIPÍCIOS DE FAITONTE, EM 1738. Estas oito comédias,
ou óperas, como também eram conhecidas, é que fizeram
de Antônio José o primeiro nome do Teatro Português
do século XVIII, tal a sua jovialidade e dramaticidade. O sucesso
de suas apresentações encolerizava, cada vez mais, o Santo
Oficio, sempre atento aos êxitos do Judeu, principalmente os alcançados
com a encenação da comédia GUERRAS DE ALECRIM E MANJERONA,
por ser esta a que melhor retratava com exatidão, as mazelas da
sociedade do tempo de D. João V e, também, a que mais o
celebrizou. Entretanto, a sua felicidade durou pouco tempo...
Antônio José, sua mãe e sua mulher, dia 05 de outubro
de 1737, quando comemoravam com seus amigos o segundo aniversário
de Lourencinha, foram surpreendidos pelos guardas do Santo Oficio, que
os levaram presos por terem sido denunciados por Feliciana, a escrava
que acompanhava a família Silva desde o Brasil, que teria sido
açoitada por Antônio José, por ter cometido furto.
Enraivecida, fugiu de casa, conseguiu entrar num barco, atravessar o rio
Tejo e esconder-se na cidade de Almada. Preocupado com a fuga da escrava,
Antônio José contou o episódio a Duarte Conttineli
Franco, que considerava mais que um amigo. Honrado com mais esta prova
de confiança, Duarte ofereceu-se para procurar Feliciana. Teve
êxito o patife! Encontrou a escrava, mas ocultou-a de seus patrões,
na sua residência, com todo conforto.
Este biltre sabia da existência de um valioso tesouro que pertencia
à família de Leonor e que, pelo casamento, era do casal.
Ambicioso e dominado pela cobiça de apoderar-se da grande fortuna
de seus amigos, passou a agir, traiçoeiramente, contra o bondoso
e sincero amigo Antônio José. Para tanto, planejou acusá-lo
ao Santo Oficio, usando Feliciana que continuava sob sua guarda. Instruiu
a escrava a vingar-se dos açoites aplicados pelo Judeu. Cercada
de promessas tentadoras, Feliciana concordou, porém, com a condição
de pouparem D. Lourença, que estimava muito. Duarte explicava-lhe,
maneirosamente, que os patrões seriam, apenas, advertidos. Prazerosa,
no dia seguinte, dirigiu-se ao tribunal do Santo Oficio com o firme propósito
de fazer a denúncia. Interrogada pelos inquisidores, contou tudo
que sabia de seus patrões e mais, confirmava o que os inquisidores
maldosamente lhe perguntavam. Terminado o interrogatório, a escrava
que já se julgava em liberdade, foi trancafiada cárcere.
Só, então, sentiu arrependimento do seu crime... Suplicava
aos gritos, que a ouvissem novamente, porque tinha mentido, mas os guardas
não lhe deram ouvidos. Morreu, ao terceiro dia, acidentalmente.
No
auto-de-fé de 18 de outubro de 1739, Antônio José
da Silva, Lourença Coutinho e Leonor Maria de Carvalho integravam
um préstito de cinqüenta e oito condenados. Os protestos e
sentidos clamores do Judeu, justificando a sua inocência, enquanto
teve forças, nada valeram... Lida a sentença e terminadas
as cerimônias, Antônio José, já semimorto, foi
conduzido para o local determinado para a consumação do
ato satânico: morte por estrangulamento e, no dia seguinte, cremado
o cadáver em praça pública, como acontecera a tantos
outros infortunados inocentes... A história dos crimes hediondos
do Santo Oficio não conta maior infâmia!...
Lourença Coutinho, velha e doente, morreu no cárcere, não
agüentou as torturas. Leonor Maria de Carvalho, mais jovem, suportou
os sofrimentos que lhe foram impostos e., graças a Deus!, ganhou
a liberdade após alguns meses de viuvez. Este beneficio foi concedido
pelo Inquisidor Geral tão logo tomou conhecimento, que o desalmado
ladrão Duarte Conttineli Franco foi causador da crueza da morte
injustíssima do Judeu, através de informações
recebidas de amigos do Padre Francisco Lopes, que assistiu Antônio
José até o fim, e de Diogo de Barros, íntimo da família
Silva e responsável de Lourencinha, durante a prisão de
sua mãe. Posta em liberdade e refeita dos suplícios do cárcere,
Leonor e sua filha fugiram para a Holanda.
E ao facínora Duarte, que lhe aconteceu?... Apoderou-se do tesouro
de seus amigos e, com nome suposto, conseguiu fugir de Portugal, gozando
uma vida faustosa na América Central. Anos depois, fazendo-se passar
por espanhol, retomou a Lisboa ostentando ainda muita riqueza, onde teve
morte atroz no terremoto de 1755, carregado de brilhantes roubados e de
remorsos por ter covardemente contribuído para a morte humilhante
de seu dileto amigo, o infortunado Judeu, que respeitosa e sentidamente,
todos nós reverenciamos agora.
E
foi assim, minhas Senhoras e meus Senhores, que o Brasil e Portugal perderam,
desumana e vergonhosamente, com apenas trinta e quatro anos, o desventurado
e talentoso Antônio José da Silva - o Judeu, uma das mais
lídimas glórias da Literatura Portuguesa, cuja Obra, felizmente,
ainda perdura.
Acabei de referir-me ao infeliz Antônio José. Cabe-me fazê-lo
agora sobre a distinta acadêmica Emérita Vera Rudge Werneck,
que devido a seus múltiplos compromissos, interrompeu a sua permanência
como acadêmica, mas continuará fazendo parte da Academia
Luso-Brasileira de Letras, na categoria de Emérito, pelo muito
que significa como valor mora e intelectual. Vejamos, resumidamente, o
quanto ela é importante na esfera educacional. É formada
em Filosofia e na formação de Psicólogos pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro. Foi Professora de História
de Pensamento na PUC. Professora de Filosofia da Educação
no Brasil e Filosofia da Cultura na Universidade Gama Filho. Possui Mestrado
em filosofia feito na PUC, e Doutorado em Filosofia pela Universidade
Gama Filho. Tem participado de diversos congressos de Filosofia nacionais
e internacionais honrando, condignamente, o Brasil. Já publicou,
entre outros, os livros: Ideologia na Educação, o Eu Educado
e o Pensamento do Padre Antônio Vieira na Cultura Brasileira. Além
de outras inúmeras participações filosóficas
é, também, desde 1973, diretora do Colégio Padre
Antônio Vieira do Rio de Janeiro. Procurei, nesta pequena síntese,
registrar um pouco da eloqüência da acadêmica Vera Rudge
Werneck, a quem, humildemente e despido de outros méritos que não
sejam os de querer bem-servir o Brasil e Portugal, sucedo na cadeira número
28 da Academia Luso-Brasileira de Letras - que tem um imortal Patrono:
Antônio José da Silva - o Judeu e teve, até hoje,
uma magnífica representante, com larga contribuição
no fortalecimento das relações de amizade entre os dois
Povos Irmãos: Brasil e Portugal. Portanto, minhas sinceras homenagens
à Ilustre acadêmica Emérita Vera Rudge Werneck e a
promessa de que tudo farei para bem substituí-Ia.
Finalizando, quero agradecer a presença honrosa do Sr. Dr. Carlos
Manuel Duraut Paes, Cônsul Geral de Portugal no Rio de Janeiro.
Agradeço também penhoradamente, ao Sr. Dr. Antônio
Joaquim Marques, festejado presidente da Casa de Portugal, e a seus competentes
diretores, pela fineza que tiveram de ceder as dependências desta
prestimosa Instituição para que nelas se realizasse o acontecimento
que estamos vivendo. Estendo este singelo agradecimento ao Sr. Dr. Kepler
Alves Borges, fervoroso presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras
e prestigiosa presença na Comunidade Luso-Brasileira que, há
longos, tem a bondade de honrar-me com sua amizade. Com o mesmo sentimento,
agradeço a todos que tiveram a gentileza de ouvir-me e de abrilhantar,
com suas meritórias presenças, esta solenidade de minha
posse na Academia Luso-Brasileira de Letras, que constitui uma das maiores
emoções das muitas que tenho vivido ao longo de quarenta
e cinco anos de permanência no Brasil minha segunda Pátria.
Antero
de Macedo
Lembrança
da sessão solene de posse do acadêmico ANTERO DE MACEDO,
na Academia Luso-Brasileira de Letras, em 19/03/1996.
ANTÔNIO
JOSÉ – O JUDEU
SER JUDEU ERA BASTANTE PENOSO
NESSE TEMPO DA SANTA INQUISIÇÃO;
TORNANDO-SE UM CRISTÃO MESMO DITOSO
NÃO SE LIVRAVA DA PERSEGUIÇÃO.
ÉPOCA
TÃO BÁRBARA E TÃO SEM GOZO
A QUE VIVIAM SOB INQUIETAÇÃO:
HEBREUS, JESUÍTAS, O NÃO MEDROSO,
TODOS PRESAS FÁCEIS DO ESPIÃO.
MALDADE
PELOS HOMES PRATICADA
EM NOME DE DEUS-PÉROLA SAGRADA?
SENHOR BEM, DO AMOR E BONDADE.
PERDÃO,
DEUS-PAI MISERICORDIOSO
PARA TODO O FALSO RELIGIOSO:
MATAVA, QUEIMAVA SEM PIEDADE...
Antero
de Macedo
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