Antero de Macedo
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Discurso de Posse do Acadêmico Antero de Macedo na cadeira nº 28 da Academia Luso-Brasileira de Letras. Casa de Portugal do Rio de Janeiro em 19 de março de 1996.


Minhas Senhoras e Meus Senhores


É- me profundamente grato contar aqui, nesta prestigiosa Casa de Portugal, com a presença de V. Exas., honrando este ato de minha posse como membro efetivo da nobre Academia Luso-Brasileira de Letras. No entanto, se a honra da presença de tão seleta assistência é para mim motivo de grande alegria, certo é, também, que o meu constrangimento não é menor pela circunstância de não estar habituado a fazer uso da palavra falada, salvo em pequenas ocasiões de menor relevância. Militando na comunidade Luso- Brasileira há mais de quarenta anos, sempre procurei ficar afastado da palavra falada, preferindo, embora sem brilho, a palavra escrita, pela timidez advinda da dificuldade oratória que me acompanha ao longo dos anos...

Todo este constrangimento que sinto agora é fruto da bondade e da nobreza de alma do amigo acadêmico Joaquim Simões de Faria, meu apresentador, padrinho e paraninfo nesta cerimônia que, com a sua fulgurante sapiência, conseguiu prender a atenção de V. Exas. dizendo-lhes algumas modestas coisas que me são afins. Sejam pois, para o ilustre acadêmico, meus primeiros agradecimentos pela sua generosidade, pois foi graças à sua influência e desmedido estímulo, que também passo a fazer parte da Academia Luso- Brasileira de Letras, onde serei somente uma simples presença, junto dos demais cultíssimos acadêmicos, que ora saúdo.

Vejo-me, portanto, entre a cruz e a espada: bem ou mal, sinto o dever de dizer-lhes algo sobre o acontecimento de que estamos participando. Em ocasião como esta, vale lembrar a frase que escutei há mais de cinqüenta anos, no Colégio Ulissiponense, em Lisboa, de um dos meus professores:... " é difícil, mas não é impossível ". Lembrando o velho e saudoso mestre e contando ainda com a benevolência de V. Exas., tentarei cumprir todo o ritual a que estou sujeito na esperança que hão de perdoar quaisquer desacertos considerando que, mesmo com setenta e três anos de idade, confesso-me “marinheiro de primeira viagem”.

Faz parte desta solenidade o pronunciamento de algumas palavras sobre a vida do desventurado Antônio José da Silva - o Judeu, Patrono da cadeira número 28 da Academia Luso-Brasileira de Letras e fazer, também, merecidas e justíssimas referências à digna acadêmica emérita Vera Rudge Werneck que, a seu pedido, deixou vaga a cadeira patronímica do Judeu, por falta de disponibilidade. Quer o primeiro, quer a segunda, são dois nomes que merecem o maior respeito. Começo, então, pelo desditoso Antônio José -o Judeu, cujo nome, certamente, não será estranho aos presentes, pois já no curso primário, embora sucintamente, é citado pelo menos em Portugal.

Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1705, sob o anátema da Santa Inquisição, de tão triste e nefanda lembrança. Seus pais, João Mendes da Silva e Lourença Coutinho, eram judeus. O pai era advogado. A mãe foi acusada ao Santo Oficio de professar o judaísmo. Por este crime, ela e muitos outros cristãos-novos radicados no Brasil foram chamados à Metrópole, por ordem de João V, e recolhidos aos calabouços de Lisboa. O Dr. João Mendes da Silva acompanhou a mulher, levando consigo o filho Antônio José, que ao chegar a Portugal foi matriculado na Universidade de Coimbra, formando-se em Direito em 1726.

Decorrido pouco tempo de sua formatura, o inteligente jovem, talvez por incomodar alguém da corte, foi também acusado de judaizar, o que nunca foi comprovado porque, submetido aos maiores sofrimentos, negou sempre essa prática e afirmava aceitar Jesus e a Virgem Maria. Foi alcunhado de Judeu, apenas por ser filho de judeus. Embora em Coimbra tivesse sido alvo
de vexames, o martírio de Antônio José começou, verdadeiramente, em 06 de agosto de 1726, quando foi preso no escritório de seu pai onde diariamente prestava serviço forense. Recolhido à prisão, sofreu castigos os mais severos e a humilhação de incorporar com hábito penitencial o auto-de-fé de 13 de outubro de 1726. Quando foi libertado, seu velho pai, ao vê-lo com os dedos das mãos macerados e outras cicatrizes, caiu nos maços do filho...Desgostoso, morreu pouco tempo depois...

Antônio José casou com Leonor Maria de Carvalho, portuguesa da cidade da Covilhã, que conhecia desde criança. Era o fim do compromisso assumido pelos dois jovens, à cabeceira da cama da mãe de Leonor, prestes a dar o último suspiro... Mãe e filha já tinham sido vítimas da Inquisição, em Espanha, onde Leonor incorporou um auto-de-fé em 26 de Janeiro de 1727. Este casamento fez crescer as desconfianças dos espiões do Santo Oficio, como veremos adiante. Desta união nasceu uma linda menina a quem foi dado o nome de Lourença, uma homenagem a sua avó paterna.

Nesse tempo, mesmo depois de ter sofrido horríveis padecimentos físicos e mentais, Antônio José conseguiu impor-se através de suas "óperas" que lhe proporcionavam grande fama na sociedade 1isboeta, quer como advogado, quer muito mais ainda como comediógrafo e poeta. As suas peças caracterizavam-se pela crítica de costumes, pela sutileza da intriga, pela habilidade com que retratava o cotidiano da sociedade portuguesa, apontando os vícios e os erros de todas as classes; e pela variedade de cenários, pelo maravilhoso desempenho do elenco do qual às vezes, também fazia parte. Era aplaudidíssimo, pois melhor que ele, só mesmo o inconfundível Gil Vicente, poeta e teatrólogo do século XVI, que legou à posteridade quarenta e quatro magníficas peças teatrais, todas merecedoras dos aplausos, até, dos reis D.João lI, D. Manuel I e D. João III, cuja vida artística abrangeu os três reinados. Depois destes dois brilhantes comediógrafos é que surgiu Almeida Garrett para sublimar mais e mais o Teatro Português, mas isto só ocorreu na primeira metade do século XIX.

Antônio José fez a sua primeira apresentação como comediógrafo em 1733, encenando a "ópera" A VIDA DO GRANDE DOM QUIXOTE DE LA MANCHA E DO GORDO SANCHO PANÇA, no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, que constituiu uma enorme consagração! Foi, sem dúvida, devido a esta apoteótica manifestação que Antônio José se dedicou a compor e a apresentar novas peças, como: ESOPAIDA OU VIDA DE ESOPO, em 1734; ENCANTOS DE MEDEIA, em 1735: ANFITRIÃO E LABIRINTO DE CRETA, ambas em 1736; GUERRAS DE ALECRIM E MANJERONA E AS VARIEDADES DE PROTEU, as duas em 1737; e a última, PRECIPÍCIOS DE FAITONTE, EM 1738. Estas oito comédias, ou óperas, como também eram conhecidas, é que fizeram de Antônio José o primeiro nome do Teatro Português do século XVIII, tal a sua jovialidade e dramaticidade. O sucesso de suas apresentações encolerizava, cada vez mais, o Santo Oficio, sempre atento aos êxitos do Judeu, principalmente os alcançados com a encenação da comédia GUERRAS DE ALECRIM E MANJERONA, por ser esta a que melhor retratava com exatidão, as mazelas da sociedade do tempo de D. João V e, também, a que mais o celebrizou. Entretanto, a sua felicidade durou pouco tempo...

Antônio José, sua mãe e sua mulher, dia 05 de outubro de 1737, quando comemoravam com seus amigos o segundo aniversário de Lourencinha, foram surpreendidos pelos guardas do Santo Oficio, que os levaram presos por terem sido denunciados por Feliciana, a escrava que acompanhava a família Silva desde o Brasil, que teria sido açoitada por Antônio José, por ter cometido furto. Enraivecida, fugiu de casa, conseguiu entrar num barco, atravessar o rio Tejo e esconder-se na cidade de Almada. Preocupado com a fuga da escrava, Antônio José contou o episódio a Duarte Conttineli Franco, que considerava mais que um amigo. Honrado com mais esta prova de confiança, Duarte ofereceu-se para procurar Feliciana. Teve êxito o patife! Encontrou a escrava, mas ocultou-a de seus patrões, na sua residência, com todo conforto.

Este biltre sabia da existência de um valioso tesouro que pertencia à família de Leonor e que, pelo casamento, era do casal. Ambicioso e dominado pela cobiça de apoderar-se da grande fortuna de seus amigos, passou a agir, traiçoeiramente, contra o bondoso e sincero amigo Antônio José. Para tanto, planejou acusá-lo ao Santo Oficio, usando Feliciana que continuava sob sua guarda. Instruiu a escrava a vingar-se dos açoites aplicados pelo Judeu. Cercada de promessas tentadoras, Feliciana concordou, porém, com a condição de pouparem D. Lourença, que estimava muito. Duarte explicava-lhe, maneirosamente, que os patrões seriam, apenas, advertidos. Prazerosa, no dia seguinte, dirigiu-se ao tribunal do Santo Oficio com o firme propósito de fazer a denúncia. Interrogada pelos inquisidores, contou tudo que sabia de seus patrões e mais, confirmava o que os inquisidores maldosamente lhe perguntavam. Terminado o interrogatório, a escrava que já se julgava em liberdade, foi trancafiada cárcere. Só, então, sentiu arrependimento do seu crime... Suplicava aos gritos, que a ouvissem novamente, porque tinha mentido, mas os guardas não lhe deram ouvidos. Morreu, ao terceiro dia, acidentalmente.

No auto-de-fé de 18 de outubro de 1739, Antônio José da Silva, Lourença Coutinho e Leonor Maria de Carvalho integravam um préstito de cinqüenta e oito condenados. Os protestos e sentidos clamores do Judeu, justificando a sua inocência, enquanto teve forças, nada valeram... Lida a sentença e terminadas as cerimônias, Antônio José, já semimorto, foi conduzido para o local determinado para a consumação do ato satânico: morte por estrangulamento e, no dia seguinte, cremado o cadáver em praça pública, como acontecera a tantos outros infortunados inocentes... A história dos crimes hediondos do Santo Oficio não conta maior infâmia!...

Lourença Coutinho, velha e doente, morreu no cárcere, não agüentou as torturas. Leonor Maria de Carvalho, mais jovem, suportou os sofrimentos que lhe foram impostos e., graças a Deus!, ganhou a liberdade após alguns meses de viuvez. Este beneficio foi concedido pelo Inquisidor Geral tão logo tomou conhecimento, que o desalmado ladrão Duarte Conttineli Franco foi causador da crueza da morte injustíssima do Judeu, através de informações recebidas de amigos do Padre Francisco Lopes, que assistiu Antônio José até o fim, e de Diogo de Barros, íntimo da família Silva e responsável de Lourencinha, durante a prisão de sua mãe. Posta em liberdade e refeita dos suplícios do cárcere, Leonor e sua filha fugiram para a Holanda.

E ao facínora Duarte, que lhe aconteceu?... Apoderou-se do tesouro de seus amigos e, com nome suposto, conseguiu fugir de Portugal, gozando uma vida faustosa na América Central. Anos depois, fazendo-se passar por espanhol, retomou a Lisboa ostentando ainda muita riqueza, onde teve morte atroz no terremoto de 1755, carregado de brilhantes roubados e de remorsos por ter covardemente contribuído para a morte humilhante de seu dileto amigo, o infortunado Judeu, que respeitosa e sentidamente, todos nós reverenciamos agora.

E foi assim, minhas Senhoras e meus Senhores, que o Brasil e Portugal perderam, desumana e vergonhosamente, com apenas trinta e quatro anos, o desventurado e talentoso Antônio José da Silva - o Judeu, uma das mais lídimas glórias da Literatura Portuguesa, cuja Obra, felizmente, ainda perdura.

Acabei de referir-me ao infeliz Antônio José. Cabe-me fazê-lo agora sobre a distinta acadêmica Emérita Vera Rudge Werneck, que devido a seus múltiplos compromissos, interrompeu a sua permanência como acadêmica, mas continuará fazendo parte da Academia Luso-Brasileira de Letras, na categoria de Emérito, pelo muito que significa como valor mora e intelectual. Vejamos, resumidamente, o quanto ela é importante na esfera educacional. É formada em Filosofia e na formação de Psicólogos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Foi Professora de História de Pensamento na PUC. Professora de Filosofia da Educação no Brasil e Filosofia da Cultura na Universidade Gama Filho. Possui Mestrado em filosofia feito na PUC, e Doutorado em Filosofia pela Universidade Gama Filho. Tem participado de diversos congressos de Filosofia nacionais e internacionais honrando, condignamente, o Brasil. Já publicou, entre outros, os livros: Ideologia na Educação, o Eu Educado e o Pensamento do Padre Antônio Vieira na Cultura Brasileira. Além de outras inúmeras participações filosóficas é, também, desde 1973, diretora do Colégio Padre Antônio Vieira do Rio de Janeiro. Procurei, nesta pequena síntese, registrar um pouco da eloqüência da acadêmica Vera Rudge Werneck, a quem, humildemente e despido de outros méritos que não sejam os de querer bem-servir o Brasil e Portugal, sucedo na cadeira número 28 da Academia Luso-Brasileira de Letras - que tem um imortal Patrono: Antônio José da Silva - o Judeu e teve, até hoje, uma magnífica representante, com larga contribuição no fortalecimento das relações de amizade entre os dois Povos Irmãos: Brasil e Portugal. Portanto, minhas sinceras homenagens à Ilustre acadêmica Emérita Vera Rudge Werneck e a promessa de que tudo farei para bem substituí-Ia.

Finalizando, quero agradecer a presença honrosa do Sr. Dr. Carlos Manuel Duraut Paes, Cônsul Geral de Portugal no Rio de Janeiro. Agradeço também penhoradamente, ao Sr. Dr. Antônio Joaquim Marques, festejado presidente da Casa de Portugal, e a seus competentes diretores, pela fineza que tiveram de ceder as dependências desta prestimosa Instituição para que nelas se realizasse o acontecimento que estamos vivendo. Estendo este singelo agradecimento ao Sr. Dr. Kepler Alves Borges, fervoroso presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras e prestigiosa presença na Comunidade Luso-Brasileira que, há longos, tem a bondade de honrar-me com sua amizade. Com o mesmo sentimento, agradeço a todos que tiveram a gentileza de ouvir-me e de abrilhantar, com suas meritórias presenças, esta solenidade de minha posse na Academia Luso-Brasileira de Letras, que constitui uma das maiores emoções das muitas que tenho vivido ao longo de quarenta e cinco anos de permanência no Brasil minha segunda Pátria.

Antero de Macedo

Lembrança da sessão solene de posse do acadêmico ANTERO DE MACEDO, na Academia Luso-Brasileira de Letras, em 19/03/1996.

ANTÔNIO JOSÉ – O JUDEU


SER JUDEU ERA BASTANTE PENOSO
NESSE TEMPO DA SANTA INQUISIÇÃO;
TORNANDO-SE UM CRISTÃO MESMO DITOSO
NÃO SE LIVRAVA DA PERSEGUIÇÃO.

ÉPOCA TÃO BÁRBARA E TÃO SEM GOZO
A QUE VIVIAM SOB INQUIETAÇÃO:
HEBREUS, JESUÍTAS, O NÃO MEDROSO,
TODOS PRESAS FÁCEIS DO ESPIÃO.

MALDADE PELOS HOMES PRATICADA
EM NOME DE DEUS-PÉROLA SAGRADA?
SENHOR BEM, DO AMOR E BONDADE.

PERDÃO, DEUS-PAI MISERICORDIOSO
PARA TODO O FALSO RELIGIOSO:
MATAVA, QUEIMAVA SEM PIEDADE...

Antero de Macedo