| Excelentíssimo Sr.
Presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras Acadêmico Alcides
Martins dirijo-me a V. Exa. na ilustre representação de
todos os componentes da mesa presidencial.
Sras. e srs. Convidados, meus amigos
Caríssimos acadêmicos.
Graças à generosidade
fidalga de todos os meus confrades, estou hoje aqui nesta verdadeira Alma
Mater da inteligência, da cultura e da arte literária da
Comunidade Luso-Brasileira, ingressando nesta ilustre e excelsa Academia,
o que muito me honra. A todos agradeço profundamente comovido,
tanto mais que bem sei que, mais que a meus pobres méritos, mais
devo o meu acesso a este conclave à amizade de todos, e muito particularmente
do meu preclaro Amigo Dr. Eduardo Artur Neves Moreira, cujas palavras
me confundiram de tão exageradas que me pareceram. Tentarei não
desmenti-las muito quanto à vontade de acertar. Assim me ajude
a sabedoria do meio século que acabo de celebrar, e me amparem
as Musas que parcamente parecem iluminar por vezes o meu caminho. Bem
hajam todos.
Não me atrevo, porém, a usar esta augusta cadeira sem, primeiro,
prestar homenagem, humilde e bem sentida, a quem a ocupou imediatamente
antes de mim com inusitado brilho, o insigne Acadêmico Albano Raymundo
da Fonseca Marques, literariamente conhecido como Albano Marques. Ensaista,
poeta, jornalista, jurista e engenheiro-arquiteto, foi portador de medalhas
e honrarias as mais distintas, entre elas a Grande Medalha de Prata do
Real Gabinete Português de Leitura (do qual foi Sócio Honorário,
além do Liceu Literário Português). Seria enfadonho
enumerar aqui os seus títulos e funções, todos honrosíssimos.
Mas, como estamos num cenáculo de Letras, prestar-lhe-emos a maior
das homenagens lembrando um dos seus poemas, que poderíamos considerar
alusivos. Foi escolhido entre os do seu livro “Poesia Pagã”:
“As ideias têm
asas e fogem ligeiras/ como qualquer ave dos céus;/ e, se partem
para a imensidão/ do esquecimento e do abandono,/ raramente voltam
ao pensamento,/ e estão condenadas à morte!
“E uma caçada de ideias esquecidas,/ nos recessos da memória,/
é dolorosa para o pensador,/ e um castigo para a inteligência.
“Então, antes que fujam,/ ou que tenhamos de caçá-las
em vão,/ engaiolemo-las no carinho/ das grades douradas dos livros:
“O livro é a mansão das ideias,/ que, presas em suas
folhas/ e afiveladas em suas páginas,/ bebem o elixir da longa-vida,
e vivem eternamente!”
Após a recitação desta verdadeira poesia filosófica
de Albano Marques, resta-me uma referência respeitosa ao Patrono
desta cadeira, o glorioso poeta Cruz e Sousa, imorredoiro padrão
das Letras Brasileiras e Lusíadas em geral. Ele foi o introdutor
no Brasil da escola simbolista . Nos tempos em que imperavam o Romantismo
tardio e os recém-chegados e vigorosos realismo e naturalismo de
Flaubert, Zola ou Eça de Queirós, o nosso Poeta ousou desafiar
os novos estilos, contrapondo-lhes o subjetivismo, a sutileza da metáfora,
a instabilidade lírica da expressão, na cola do que fizera
Mallarmé em França e fariam Antônio Nobre, Camilo
Pessanha e Eugênio de Castro em Portugal.
O Simbolismo, no Brasil, teve início em 1893 com a aparição
de dois livros: “Missal”, em prosa, e “Broquéis”,
em verso, ambos de Cruz e Sousa. Ele resistirá na literatura brasileira
até ao ano de 1922, data em que se realizou a Semana de Arte Moderna
de São Paulo, que foi um divisor de águas entre o que se
fizera anteriormente e o que se queria futuramente, uma arte e literatura
divergentes da tradição. Infelizmente, os europeus tinham
tido antes a mesma idéia, mas de tal quiproquo não me cabe
falar neste momento.
O início do Simbolismo não pode ser entendido, porém,
como o fim da escola antecedente, o realismo. Na realidade, no final do
século XIX e início do XX existiram 3 tendências que
caminhavam paralelamente: o Realismo e suas manifestações,
como os romances realistas e naturalistas e a poesia parnasiana; o Simbolismo,
situado na orla da chamada “literatura oficial”; e por fim
o pre-Modernismo, personificado em alguns autores precursores da literatura
engagée, como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato.
De qualquer maneira, pode dizer-se que, no Brasil, o Simbolismo começa,
se desenvolve e se encerra com o grande Cruz e Sousa.
O Simbolismo começa por ser a negação do Realismo
e suas manifestações. De fato, a nova estética nega
o materialismo, o racionalismo, valorizando, em contrapartida, as manifestações
metafísicas e espirituais. O que equivale a dizer que é
a negação do Naturalismo e do Parnasianismo.
A realidade objetiva não mais interessa; o homem volta-se para
uma realidade subjetiva, retomando assim um aspecto abandonado desde o
Romantismo. O eu passa a ser o universo, mas não o eu superficial,
sentimentalóide e piegas do Romantismo: os simbolistas vão
em busca da essência do ser humano, daquilo que ele tem de mais
profundo e comum com todos – a alma. Daí vem a sublimação
tão procurada pelos simbolistas: a oposição entre
a matéria e o espírito, a purificação, na
qual o espírito atinge as regiões etéreas, o espaço
infinito. Em última análise, a oposição entre
o corpo e a alma, com a liberação da alma, só conseguida
ao se romperem as correntes que a aprisionam ao corpo, ou seja, com a
morte.
* * *
E quem foi João da Cruz e Sousa, poeta tão sofisticado que
o próprio crítico e historiador José de Nicola, mestre
de mestres, o considerou (vou citar) “um dos maiores nomes do simbolismo
universal”.
* * *
Em que berço nasceu o Poeta? Qual a sua ascendência?
A resposta a estas perguntas talvez dê a verdadeira dimensão
da sua insólita e quase única figura no panorama das letras
mundiais.
João da Cruz nasceu em novembro de 1861, em Desterro, hoje Florianópolis,
Santa Catarina.
Filho de escravos, era escravo também, negro sem mescla. Sua família
foi alforriada quando do início da Guerra do Paraguai, por seu
dono, o marechal Guilherme Xavier de Sousa. O antigo senhor e sua esposa
cuidaram do menino João da Cruz, dando-lhe inclusive o sobrenome
Sousa. Sempre com a proteção do marechal, estudou no Liceu
Provincial Catarinense. Em 1882, juntamente com Virgílio Várzea,
dirigem a Tribuna Popular, jornal abolicionista. Em 1883 abandonou sua
terra natal. Por esta época, trabalha como ponto e secretário
da companhia teatral de Julieta dos Santos, percorrendo quase todas as
províncias brasileiras. Voltando para Santa Catarina, foi nomeado
promotor público em Laguna, mas não chegou a assumir o cargo.
Transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na imprensa, mas o
seu melhor salário foi de um emprego na Estrada de Ferro Central
do Brasil.
Em 1897, tuberculoso, procurou refúgio na cidade mineira de Sítio,
vindo a falecer em 19 de março de 1898.
Cruz e Sousa teve apenas um volume publicado em vida: Broquéis.
Os dois outros volumes de poesias são póstumos, o que de
certa forma caracteriza uma carreira muito rápida.
Sua obra apresenta uma evolução importante, uma vez que
abandona o subjetivismo e a angústia iniciais para posições
mais universalizantes. De fato, sua produção inicial fala
da dor e do sofrimento do homem negro (evidentes colocações
pessoais), mas evolui para o sofrimento e a angústia do ser humano
em geral.
Para terminar com uma nota pessoal, recordo ter ouvido um amigo de um
de meus avós, no meu distante Algarve e na minha não menos
distante meninice, entoar um fado, que dizia ser o Fado Cruz e Sousa.
Vou tentar repetir em parte a sua letra:
“Eu era triste e sozinho, jamais
Tinha amado ninguém,
Só vivia para a dor...
Mas um dia tua mão se estendeu
teu sorriso se abriu para o perdão
Teu coração me abrigou...
E foi assim que eu comecei
a ser feliz!”
Terá Cruz e Sousa cultivado
o fado rigoroso do Marialva e da Severa? Ai está uma instigante
questão que o Mestre nos deixa em suspenso.
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