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VOZ D DOMINGO – 23 DE JULHO DE 1995 _________________________________
Leiria (Portugal) Padres e bichos Quando eu era seminarista, comprei um livrinho dos vicentinos (membros das Conferências de São Vicente de Paulo), de que não sei mais o nome, que ensinava uma coisa muito simples mas da qual nunca esqueci: quando visitar um doente sofrendo no leito, seja breve e faça sentir sua presença menos por palavras do que por algum gesto de amor pelo qual o doente veja em você não tanto um simples amigo mas o enviado de Deus. Agora que me tornei esse doente (quatro semanas menos dois dias internado na Clínica Ênio Serra, aqui no Rio), pude sentir na pele quanta verdade existe nessa recomendação. Sabia e entendia bem por que a ordem no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) era não permitir visitas mais que uma hora por dia e, mesmo assim, poucas pessoas e só uma de cada vez. Sabia que o doente fica feliz em receber atenções e manifestações de carinho mas ao mesmo tempo reconhecia que o corpo, e até o espírito, está debilitado e o resultado é que, muitas vezes, ele chega ao fim meio desassossegado, desfalecido, cansado, sei lá. Mas, ao mesmo nessas circunstâncias, a recomendação do livrinho é válida. Sem esquecer as visitas da minha mulher e das filhas, aquela que me fez quem faz as vezes do meu patrão – padre Abílio Soares de Vasconcelos – encaixou bem. No segundo dia de internação, quando já era noite, apareceu ele, de forma muito discreta, pés de veludo, dizem, falando manso e baixinho como convém, imagino, a anjos descidos do Céu. Olhos mortiços os meus, meio dopado por não sei quantos tubos que deixavam pingar o remédio nas minhas veias, mesmo assim deu bem para ver e ouvir: - Estou aqui, sou eu – me disse o bom padre (português por sinal, de Fornelos), quase me fazendo lembrar o conto Suave milagre, de Eça de Queirós – em que Jesus bate à porta, de súbito, na palhoça onde jazia um menino doente que só queria vê-lo. Olhei com mais atenção e pude ver bem. O senhor, meu padre, meu irmão, estava tão bonito com aquele avental verde que lhe deram para vestir antes de entrar. Lhe caía bem e fazia sentido. Essa imagem, eu nunca mais vou esquecer. Dizem que verde é esperança. E a sensação nítida que tive, quando o senhor me impôs suas mãos implorando a benção e protecção de Deus, é que começava a vencer a parada. Agora eu começava a esperar pelas minhas melhoras. Mais: o senhor não sabe como me fizeram bem as palavras que me disse quando já ia embora: -
Borges, fique tranqüilo. Você não tem que se preocupar
com nada de dinheiros. Pra mim, um gesto desses redime, de certa forma, todas as faltas de que tanta gente se delicia em acusar este ou aquele padre. “Os padres são todos uns safados, piores que Judas, só querem dinheiro”, cansei de ouvir. Alto lá. Porque tantos escritores e roteiristas de televisão gostam tanto de pichar o padre? Sei, só se atiram pedras em arore que dá bom fruto. Certamente existem padres indignos, e nós, os católicos, somos os primeiros a ter pena deles. Mas porque um soldado deserta, vamos acusar todo o Exército? Porque um médicos errou tudo, todos os médicos são burros? Porque um comerciante lesou o freguês, todos os comerciantes deviam ir para a cadeia? Sou suspeito quando saio em defesa dos padres. Também eu quis se um deles Sempre vivi no meio deles, nunca deixei de me dar bem com eles. Ma sei distinguir. Também eu conheci e conheço sacerdotes bem pouco edificantes. Mas, em Deus, como não fazer justiça a tantos e tantos outros, ricos de conteúdo humano e religioso, exemplos de fidelidade absoluta a seus compromissos sacerdotais? E acho que não é preciso citar um padre Cruz ou um padre Américo como se tratasse de excepções no caminho da santidade. Aí como aqui, conheci e conheço muitos padres sem nome na praça, desconhecidos até daqueles a quem servem e que, no entanto, são verdadeiros gigantes na honestidade com que cumprem seus deveres, na generosidade com que se sua experiência de consagração, na alegria com que trabalham e se consomem na construção no Reino de Deus neste mundo. Não sou Papa para canonizar ninguém, mas quem conheceu, por exemplo, o padre Joaquim Carreira de Faria, falecido há pouco, me contradiria se eu o proclamasse um homem de Deus, um verdadeiro santo? Ainda que, como eu, se reconhecesse pecador, o padre Faria, de Santa Catarina da Serra, estou certo, foi bem o “servo bom e fiel”de que Cristo falou e que, a exemplo de tantos outros, tão bem soube dignificar o sacerdócio católico. Quando nesta terra sem fim vejo os jornais noticiando mil formas de violência, me pergunto se uma das causas não será a falta do padre, daquele que prega e vive o Evangelho, que torna Cristo presente no mundo donde até Deus parece às vezes ter-se escondido. O santo Cura d’Ars, que viveu há mais de cem anos e não foi dotado de grande inteligência mas tinha em abundancia a sabedoria de Deus, disse uma coisa que se me afigura a resposta mais acertada para diagnosticar os males do nosso tempo: “Tirai o padre do meio dos homens e eles se tornarão piores que bichos”. Aí está. E como bichos os homens se odeiam, se esgoelam e matam. O Senhor, dá-nos muitos e santos sacerdotes. Só assim podemos esperar um mundo melhor, melhor Te conhecer e amar, melhor nos reconhecermos e amarmos todos como irmãos. Rio
de Janeiro, 18/06/1995 |