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DISCURSO DE POSSE DO ACADÊMICO ABÍLIO SOARES DE VASCONCELOS NA CADEIRA N. 2 DA ACADEMIA LUSO-BRASILEIRA DE LETRAS, PROFERINDO NO DIA 20 DE JULHO DE 1999, NO SALÃO NOBRE DA CASA DAS BEIRAS DO RIO DE JANEIRO.
Senhor doutor Luís Filipe de Castro Mendes, ilustre cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro Senhor comendador Manuel Vieira, presidente da Casa das Beiras Reverendíssimo Dom Romeu, meu leal amigo e representante do senhor cardeal Dom Eugênio Sales Demais componentes da Mesa de Honra Mui estimado padrinho acadêmico Adolfo Santos Prezados acadêmicos Queridos amigos que me honram com sua presença
Inicialmente, quero agradecer ao doutor Kepler a quem aprendi a reverenciar como homem de letras e ao mesmo tempo uma pessoa afetuosa a quem considero um amigo de ouro. E eu que estava precisando de um amigo do seu quilate! Quero agradecer a todos os membros da Academia Luso-Brasileira de Letras que me deram seu voto de confiança e me receberam como um de seus pares. E eu que estava precisando de aumentar minha família! Agora, além de mais numerosa, ela está mais cintilante com o brilho das estrelas desta academia. Quero agradecer de modo muito especial ao meu padrinho acadêmico Adolfo Santos, meu amigo e companheiro de grandes jornadas. Ele que nunca me deixou esmorecer no ardor das lutas, mesmo quando as forças malignas já contavam vitória. E eu que estava precisando de alguém que realmente me apadrinhasse nas primeiras passadas que havia de dar no campo das letras e defesa da verdade e da justiça! Quero agradecer aos meus pais que proporcionaram as primeiras letras e o gosto pelo belo. A eles e aos demais membros da minha família, de sangue e de adoção, um muito obrigado por tudo o que fizeram, para que minha vida se assemelhasse a um poema, traduzido no sorriso que me é peculiar. Quero agradecer ao professor Adriano e à professora Idalina, da Escola Primária de Fornelos, em Cinfães do Douro, os primeiros que passaram para mim o gosto pelos estudos e a simpatia por Almeida Garrett. Quero agradecer ao Colégio das Chagas e dos Agostinhos, em vila Viçosa, onde aprofundei meus estudos de língua e literatura portuguesa e greco-latina. Ali foi também que ensaiei os primeiros passos na arte da composição literária, guiado pelas mãos amigas dos padres Lourenço Simões, Manuel Reia e Carlos Melo. Grandes Mestres. Lembro-me bem que a primeira poesia que receitei em público, e que guardo ainda hoje no fundo da minha alma, foi a poesia de Silva Tavares: DEUS Entrega-te a Deus no estudo, Deus é a força Divina És fraco? Pois serás
forte Torna a tua vida clara. E lembra-te sobretudo Quero agradecer ao Colégio de Nossa Senhora da Purificação, em Évora, que me proporcionou o estudo da Filosofia e o início da carreira literária ao admitir-me em sua Academia dos Estudantes. Ali, eu tive oportunidade de expor mais de uma vez trabalhos escritos burilados com um certo capricho. Quero, ainda, agradecer ao Seminário de São José, no Rio de Janeiro, o estudo da Teologia e da Literatura Brasileira que veio coroar e dar sentido a toda a minha caminhada humana e literária. Quero agradecer, por fim, à Casa das Beiras que sempre me acolheu como um de seus filhos e ao seu Presidente Manuel Vieira e demais membros da diretoria que sempre me dedicaram uma amizade verdadeiramente fraterna.
II Minhas senhoras e meus senhores, quero lhe fazer uma confidência: sinto-me muito feliz ao ingressar na Academia Luso-Brasileira de Letras. Feliz não porque se trate de um prêmio que eu tenha merecido, mas porque esta instituição usou de generosidade para comigo. Deus é grande. Se por um lado semeei, reguei e frutifiquei e sinto a mágoa de não ter sido devidamente reconhecido, por outro tenho certeza de que, nada merecia, muito me foi dado. Rasguei meus versos feitos na juventude, porque a censura me perseguia e os censores, ao mais leve toque romântico, me puniam acenando com a expulsão do paraíso. Queimei crônicas, destruí sermões, alguns preparados com bastante zelo e até com arte, porque, quanto maior era o elogio do povo tanto mas alertado eu era para o perigo da vaidade, para a perda da vocação. Algumas obras, no entanto, sobreviveram e a Academia me dará o “placet” para que não tenham destino igual ao da lei da morte mas dela se acabem libertando, de acordo com os versos camonianos e a exemplo do espírito garretiano, que era teimoso e revolucionário. Aceitei ingressar nesta Academia mais para aprender do que para ensinar. Mas vim de alma aberta para repartir tudo o que recebi e, de modo especial, para ser uma presença física do clero, presente apenas nas cadeiras patronímicas do Padre Antônio Vieira, Manuel Bernardes, José de Anchieta e Serafim Leite. Neste aspecto, espero que o meu saber filosófico, teológico e canonístico possa ter alguma utilidade. Sinto-me muito honrado, não só pelo nível dos ilustres acadêmicos que honram esta instituição, pelo saber e pelo domínio da língua portuguesa de que nos dão mostras, mas também pela cadeira que vou ocupar, a de número 2, e que tem como patrono Almeida Garrett. Quando pequeno, participei numa festinha de escola primária recitando a poesia “As minhas Asas Brancas”. Peguei o gosto pelas suas poesias e, mais tarde, pelos feitos, artes e ideais deste escritor, sobretudo, a liberdade, a justiça e a lealdade. Agora, como Cristo no Horto, chegou a suar sangue. Suo sangue, angustiado por não poder substituir à altura a pessoa que ocupava a cadeira número 2: o competentíssimo e inesquecível professor doutor Silvio Elia, uma das vozes autorizadas dos estudos lingüísticos e filosóficos do Brasil. Alguns dados biográficos do meu antecessor bastarão para explicar o temor e, senão o suor de sangue, pelo menos o suor do frio que vem quando penso na responsabilidade que vou assumir ao sentar-me em sua cadeira. O professor doutor Silvio Edmundo Elia nasceu no Rio de Janeiro, aos 4 de julho de 1913, filho de Luciano Elia e Paulina Elia. Fez os primeiros estudos na Escola Municipal Eusébio de Queirós e no Colégio Pedro II. Bacharelou-se depois em ciências Jurídicas, pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil. Mais tarde, cursou e obteve o grau de doutor na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi titular de Lingüística da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro; professor catedrático de Latim do Colégio Pedro II. Foi também fundador e presidente do Círculo Lingüístico do Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Filologia e membro da Academia de Língua Portuguesa do Rio Grande do Sul, além de membro desta ilustra Academia. Foi ainda agraciado com o Grau de Comendador da Ordem Camoniana do Liceu Literário Português, instituição em que foi vice-presidente do Instituto de Língua Portuguesa. O saber do professor Silvio Elia não se limitou a esta cidade nem mesmo ao Brasil. Pôde espargir o seu acervo cultural por outros países, especialmente Portugal e França. Foi professor catedrático de Lingüística Românica em Coimbra e Lisboa, membro da Sociedade de Língua Portuguesa de Lisboa, diretor da Seção de Filologia e Lingüística da Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, da Editora Verbo de Lisboa, e membro da Société de Linguistique Romanae de Paris. Além de ter participado de muitos congressos, simpósios e conferencias internacionais como apresentador, debatedor, conferencistas e presidente de sessões plenárias, escreveu artigos em jornais e revistas especializadas. Lembremos só algumas das obras clássicas que Silvio Elia nos deixou: O problema da Língua Brasileira; Orientações da Lingüística Moderna; O ensino do Latim; Dicionário Gramatical; Ensaios de Filologia; Gramática Latina, Língua e Literatura, Preparação à Lingüística Românica; Augusto Frederico Schmidt, Seleta em Prosa e Verso; el Português do Brasil. Foi editor-redator, articulista e principal animador da revista Confluência, publicada pelo Instituto de Língua Portuguesa do Liceu Literário Português. A última contribuição que Silvio Elia deu de seu saber, foi para a Secção ‘Na Ponta da Língua’, publicada semanalmente no jornal o Mundo Português. Os alunos, pelo respeito intelectual e trato afável e carinhoso que recebiam de Silvio Elia, o classificaram como o grande mestre. De todos os títulos que enriqueciam o seu currículo, o que lhe tocava mais o coração,era o de professor. Diversas vezes ele teve ocasião de o dizer e comprovar. Em duas qualidades, pelo menos, tentarei eu também imitar esse mestre e irmão: na fraternidade e na lealdade.
Se
é difícil imitar o antecessor Silvio Elia, que direi quando
penso no patrono da cadeira? João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, conhecido como Almeida Garrett, nasceu no dia 4 de fevereiro de 1799, na Cidade do Porto, em Portugal. Seu pai, António Bernardo da Silva, era casado com Ana Augusta de Almeida Leitão e ocupou cargo de destaque na Alfândega do Porto: selador. A adoção do apelido Garrett deve-se à descendência de nobres irlandeses. A infância de Almeida Garrett passa-se no Porto e em duas Quintas situadas na margem esquerda do Rio Douro: a do Castelo e a do Sardão. Na Quinta do Castelo vive também a empregada Brígida. Ela sabe de romances e contos de fadas que Garret ouve com enlevo e nunca mais esquecerá. E na Quinta do Sardão, em casa dos avós, outra empregada, Rosa de Lima, esta brasileira, completa a curiosidade de Garrett com a narração de histórias e aventuras fantásticas. Assim se passaram os dez primeiros anos de vida simples e despreocupada do futuro do escritor, primeiro na cidade, depois no campo. As paisagens das quintas do Douro são descritas n’O Arco de Sant’Ana. Várias vezes Almeida Garret lembra o contato com a natureza: “A vida que ali vivíamos ficou sendo sempre para mim o tipo da vida feliz, da única vida natural neste mundo”. Tampouco esquece as duas empregadas. Elas lhe “embalaram a infância”, diz, certo que foram a Brígida e a mulata Rosa de Lima quem lhe enriqueceu a imaginação com lendas, xácaras e cantigas populares. E isso lhe faz despertar o gosto pelo folclore nacional, que se acentuará na fase romântica com a criação de Adosinda, poema inspirado e adaptado de um romance popular, e de modo especial com a compilação do Romanceiro. Em 1808, a Segunda Invasão Francesa levou o pânico à cidade do Porto e a todo o norte de Portugal. Os moradores da Quinta do Castelo retiraram-se então para Angra do Heroísmo, nos Açores, terra natal do pai de Almeida Garrett, onde viviam parentes de renome, entre eles três eclesiásticos. Em 1812, Dom Frei Alexandre da Sagrada Família, homem erudito e poeta arcádico, foi nomeado Bispo de angra do Heroísmo e logo procurou atrair para a vida eclesiástica gregos e latinos, filosofia, teologia e retórica e ainda os clássicos modernos de Portugal, França e Itália. Educado com um árcade, cedo Garret se revela poeta, compondo odes anacreônticas de inspiração neoclássica. Seu temperamento apaixonado e volúvel, impulso e irrequieto, deixa transparecer também o gosto pelo teatro e pelos grandes espetáculos. E, com apenas 15 anos, sua vontade de se mostrar fá-lo subir ao púlpito na igreja da Graciosa onde improvisa um sermão, à revelia do tio padre e dos demais superiores do seminário em que estudava. Chega a receber ordens menores mas pouco depois abandona o seminário. Em 1816, a família mandá-lo para Coimbra a fim de estudar leis. Com menos de 18 anos já estava matriculado na Faculdade de Direito. E é ali que inicia uma nova fase em sua vida. Cada vez mais dominado pelas idéias liberais e jacobinas, Garrett, ainda estudante defende teses revolucionárias em discursos inflamados e inicia seus dotes de criador dramático, voltado para a política. Datam desta época as tragédias Lucrécia, Xerxes, e Mérope. Em 1820 triunfa a revolução liberal e Garrett torna-se o chefe dos estudantes liberais. Logo é publicada sua primeira obra literária: um Hino Patriótico. Um ano depois, a pedido de seus colegas de Coimbra, compõe Catão, outra tragédia de índole revolucionária. É durante a apresentação desta obra em Lisboa que conhece Luísa Midosi, jovem muito bonita, de 15 anos, por quem se apaixona. Com ela virá a casar-se mais tarde, depois de formado em Direito e já nomeado Oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. O sucesso da peça Catão desperta em Garret o desejo de reformar o teatro português. Mas ainda em 1821 passa Garrett por nova experiência: é processado por ter publicado um poema didático sobre pintura. Trata-se d’O Retrato de Vênus. Mas consegue ser absolvido e é abraçado até pelo célebre Abade Correia da Serra. Entrava assim no caminho da celebridade, sempre na companhia de inovação audaciosas e em meio a alguns escândalos. As reviravoltas políticas não param de acontecer e, em 1823, quando estoura a Vila-Francada trazendo de volta o absolutismo para Portugal, Garret vê-se obrigado a emigrar, desta vez para a Inglaterra. Ali entra em contato com os principais românticos, entre eles poeta Lord Byron e o romancista Walter Scott. Vê-se assim atraído pela poesia popular das coletâneas inglesas. Na Inglaterra, Garrett torna-se romântico, embora recuse a filiação a qualquer escola. Ele se mantém fiel a seu temperamento independente, e isso torna a sua obra marcada pelo ecletismo estético, de uma forma única e original, no panorama do Romantismo português. Conciliando tradição e inovação, Garrett acabou assimilando o verdadeiro espírito democrático feito de tolerância e de respeito pela liberdade de cada um, ideal que norteará sua atuação política futura e estará sempre no centro de suas obras. Depois da Inglaterra, a necessidade imperiosa de normalizar sua situação financeira leva Garrett para a França, onde se emprega como correspondente da Casa Laffitte, instituição bancária, no Havre. A seguir muda-se para Paris. Ali, saudoso da Pátria e sofrendo privações, escreve dois poemas narrativos de inspiração nacional e que marcam a introdução do Romantismo em Portugal: Camões e Dona Branca. Com a morte de Dom João VI, em 1826, a situação política se estabiliza em solo português, e Dom Pedro IV outorga a Carta Constitucional restabelecendo o liberalismo, Garrett já pode regressar a Lisboa para se dedicar ao jornalismo. Batalhou em defesa do credo político constitucional nos jornais O Cronista e O Português. Sempre irreverente e irrequieto, suas polêmicas foram aquinhoadas com três meses de prisão no Limoeiro. Entretanto, no mês de junho de 1828, Dom Miguel é aclamado rei absoluto e aceito por todo o País, com exceção da ilha Terceira dos Açores. E, uma vez vitorioso e absolutismo, Garrett vê-se forçado a fugir novamente de Portugal e vai viver por algum tempo em Londres com sua esposa Luísa Midosi. Mais tarde, muda-se para Paris e depois para Bruges. Sua persistente atividade literária é alívio para as dificuldades e asperezas do exílio. Em 1831, a corveta Amélia parte da França rumo aos Açores levando o casal Garrett e outros emigrantes. Desembarca com os companheiros de exílio em Angra do Heroísmo onde vivera ainda mocinho com parentes seus. Em março de 1832, Garrett incorpora-se ao exercito de Dom Pedro IV e parte para a ilha Terceira, onde colabora com Mouzinho da Silveira na elaboração e redação das reformas administrativas decretadas pelo Governo Provisório. Entretanto, surge a célebre expedição liberal constituída por 7.500 soldados e que parte para o norte de Portugal indo desembarcar na Praia de Pampelido, perto de Mindelo. E, como qualquer soldado expedicionário, lá está Garrett no Batalhão Acadêmico. Depois, comandados por Dom Pedro, os soldados dirigem-se à vizinha Cidade do Porto, onde vêm a combater os absolutistas até a vitória. Agora, Garrett é encarregado de serviços administrativos e de assessoria jurídica e Dom Pedro IV e a Mouzinho da Silveira. Terminada
a guerra civil em 1834, pela convenção de Évora
Monte, Garrett recebe a nomeação de encarregado dos Negócios
do Reino em Bruxelas (cônsul-geral). Passa a freqüentar os
salões, preocupado apenas com modas e a vida social, o que acaba
por destruir sua aliança matrimonial. É o tempo do Garrett
galant. Como não havia um repertório dramático de qualidade em Portugal, logo Garrett tratou sanar esta lacuna com a criação de dramas românticos de inspiração nacional. Com a demissão do governo de Passos Manuel, em maio de 1837, Garrett perde o cargo de Inspetor-Geral dos Teatros mas continua como deputado pela Ilha Terceira. Maior reviravolta, porém, se dá na vida sentimental de Garrett. Apaixona-se por uma jovem, Adelaide Deville Pastor, de quem teve uma filha, chamada Maria Adelaide. Duplo desgosto, porém, para Garrett: a jovem-mãe morre prematuramente, em 1841, e a filha não pode ser legitimada. Os últimos anos de Garrett são muito perturbados. Domina-o forte paixão por uma senhora casada da alta sociedade lisboeta, chamada Rosa de Montufar, Viscondessa da Luz, a inspiradora das Folas Caídas, livro que muito é elevado à categoria de par do reino, recebe o titulo de Visconde e é nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros. Isto lhe deu a tranqüilidade e a possibilidade de concluir e publicar ainda em 1851 o segundo e o terceiro volumes do Romanceiro. A brevidade da vida, porém não permitiu que terminasse o romance Helena. A morte o surpreendeu em 9 de dezembro de 1854, quando contava 55 anos de idade.
A obra literária de Garrett é geralmente dividida em três fases com características bastante distintas: A primeira fase representada pela Lírica de João Mínimo, traz os traços evidentes da herança arcádica e pré-romântica mas carrega no bojo uma temática nova que reflete a amarga experiência do exílio e que pode já considerar-se romântica. A Lírica de João Mínimo contém poesias feitas em Coimbra, Lisboa, Angra, Porto e Londres. Nestas, Garrett concentra as desilusões e as tristezas do exílio bem como as esperanças e os entusiasmos do revolucionário. Da sua saudade de exilado falam principalmente as poesias O Exílio, A lira do Proscrito e O Natal em Londres. Já sobre os seus pendores liberais, encontramo-los sobretudo nas composições Aniversário da Revolução de 24 de Agosto, ao Rei Jurando a Constituição, A Guerra Civil e A liberdade. É de singular beleza a saudação que faz em A Liberdade à liberdade dos portugueses graças a novas instituições políticas:
Não faltam também as poesias que registram os sentimentos amorosos do momento, de modo especial em O Rouxinol, onde se evidenciam acentos românticos. A evocação dos tempos da juventude e a gratidão para com os parentes estão bem estampadas na poesia A meu tio Dom Alexandre da sagrada Família, escrita em Angra, em 1821. Garrett tinha a maior admiração intelectual por seu tio Frade, que, segundo ele, pertenceu à brilhante constelação de sábios e homens de letras que iluminou o reinado de Dona Maria I. É a ele que se refere quando escreve: “Tu,
que em minha alma tenra, O sentimento pela família transparece claramente também nas composições. O Amor Maternal e O Amor Paternal. Apesar de todos estes vestígios de realismo sentimental, a Lírica de João Mínimo está ainda e muito ligada ao convencionalismo arcádico. A segunda fase da obra de Garrett é a iniciação romântica sob a influencia inglesa, o que explica a introdução do nacionalismo estético e popular, característica que marcará toda a sua obra, desde os poemas narrativos de temática nacional, como Camões, Dona Branca e depois Adosinda, imitação de um romance popular. O próprio romance Dona Branca, o primeiro a ser escrito, e depois Camões, foram, segundo o autor, uma tentativa de incentivo aos jovens escritores. O poema Camões, publicado em 1825, já não observa as regras clássicas do poema épico: na invocação, em vez de chamar uma entidade mitológica, apela para a saudade. As estrofes têm número variável de versos. A rima é postergada e o verso, solto. As divindades mitológicas são postas de parte. No poema Camões temos uma temática romântica, com o amor contrariado de Camões por Natércia, que determinava todas as vicissitudes da vida do épico; e temos ainda uma estrutura, em dez cantos, análoga à d’Os Lusíadas. Garrett, no prefácio da publicação parisiense de 22 de fevereiro de 1825 faz questão de acentuar sua independência estética ao afirmar que não é clássico nem romântico e que a sua obra é uma novidade. Dona Branca é um episódio meio lendário meio histórico, relacionado com a conquista do Algarve. Trata dos amores da infanta Dona Branca, filha de dom Afonso III, com um príncipe mouro. Já em Flores sem Fruto são manifestas as tendências românticas de Garrett. O espírito arcádico sofre colapso radical em muitas das suas poesias. Para Garrett, os versos são bem um instrumento de pacificação da alma sofredora, como o diz em o Hino à Poesia: “Tu,
com quem me achei sempre Para Garrett a poesia não é obra de profissão literária nem diante consciente da vontade mas dom espontâneo da natureza, imprevisto da sensibilidade. O poeta nada sabe quanto ao seu aparecimento. A poesia é emanação da vida e, como a vida, é incerta e misteriosa. Garrett era também, desde a infância, um apaixonado pela arte dramática: Catão e Merope foram os mais valiosos ensaios dramáticos da sua juventude. Começou a trabalhar a tragédia Merope aos 12 anos, quando aprendia o grego com o professor Joaquim Alves, mas só a terminou aos 18 anos, já estudante em Coimbra. Ele mesmo ficou tão entusiasmado com a obra que a dedicou à sua mãe com os dizeres: “A minha mãe dona Augusta de Almeida Leitão dedico esta tragédia que foi o meu primeiro pensamento dramático”. O dramaturgo jamais deixa de expressar com clareza uma elegante combinação entre a cultura clássica e o pensamento cristão. A crença na eternidade é reforçada pelas idéias de Platão, sobretudo no diálogo sobre a imortalidade da alma. Sirva de exemplo esta passagem em que dá a conhecer as idéias que o filósofo pagão tinha a respeito, e que qualquer filósofo ou teólogo cristão bem pode endossar: “Catão
[só e sentado, torna a pegar no livro] Quanto ao romance histórico português, Garrett brinda-nos com O Arco de Sant’Ana que, tal como toda a sua obra dramática, enaltece a intervenção cívica e política. Embora s inspire na época medieval e o tema histórico tenha sido colhido na obra de Fernão Lopes intitulada Crônica de D. Pedro, este romance constitui obra polemica devido às múltiplas alusões que o autor faz a personalidades políticas do seu tempo. A terceira e última fase da obra de Garrett caracteriza-se pela maturidade estética. Depois do nacionalismo dominante na segunda fase, vem o ecletismo irônico, com o domínio pleno da língua portuguesa e um novo motivo de inspiração: o individualismo. É neste período que surgem as obras mais originais de Garrett. Através de um estilo muito pessoal, sobretudo com o Frei Luis de Sousa, Viagens na Minha Terra e Folhas Caídas, Garrett abre novos caminhos à literatura portuguesa. A obra-prima do teatro português é, sem duvida Frei Luis de Sousa. O elemento histórico tem apenas uma função exterior o que realmente interessa e constitui o elemento inovador na peça é o estudo psicológico dos personagens que a compõem. Trata-se de um drama de família no geral, segundo o próprio Garrett, e toda a “simplicidade de uma fábula trágica antiga”. Em folhas Caídas, último livro de versos de Garrett, a vida e a poesia do autor estão intimamente a ponto de escandalizar e simultaneamente apaixonar os leitores da época. Garrett liberta-se inteiramente da formação arcádica e compõe uma obra inovadora e moderna, tanto pelo conceito de amor que nela canta ( uma devastadora paixão sensual) como pela métrica. As Folhas Caídas de Garret, juntamente com as líricas de João de Deus e as de Junqueiro, bem como as Memórias duma Consciência, de Antero, e os poemas de Cesário Verde, constituem o que há de melhor no espólio lírico do século XIX. Das Folhas Caídas disse Herculano: “Penso que, se Camões fizesse versos de amor na idade em que está Garrett, não era capaz de o igualar. São belíssimos! Aquele diabo não pode como talento que Deus lhe deu!...” Viagens na Minha Terra é a história de Joaninha. Este livro tem sua origem numa visita que Garrett fez a Passos Manuel, que vivia na sua Quinta de Alpiarca, em Santarém. Nele, o autor anota circunstancias da vida do exílio e idéias políticas que lhe eram simpáticas, e revive fatos da infância evocando a empregada Brígida, a “famosa cronista de história da carochinha”. Embora seja um livro por demais dispersivo, os encantos da paisagem do vale de Santarém, os episódios que constituem a história da Joaninha dos olhos verdes, tudo vazado na elegantíssima prosa de Garretiana, valorizam especialmente as Viagens na Minha Terra, como uma peça da mais pura e sã literatura portuguesa. Pessoalmente, toda vez que li Viagens na Minha Terra, mais se acentuou em mim o gosto por esta obra de Garrett e mais o coração se me prendia à terra onde nasci. Como Garrett, vivi a juventude, escondido na margem esquerda do Rio Douro, ao norte de Portugal, onde me apaguei ao torrão natal que me viu nascer. Por mais que eu tente me adaptar à cidade, sempre estão presentes na minha memória pelo menos as duas últimas quadras de um poema que um dia fiz à minha aldeia: Por
tudo isto me desculpem, Garrett não foi unicamente escritor. A sua atividade como homem público e os seus ideais políticos determinavam-lhe os temas e estimulavam-no como escritor. Devido à sua vida tumultuada por exílios, pela guerra civil, pela instabilidade política e familiar, não pôde ser um escritor de carreira. Mas a sua faceta de homem de teatro, essa ninguém, nada conseguiu ofuscar por um momento sequer. Até a sua poesia pode dizer-se mais dramática que lírica. Garrett foi um homem de personalidade muito rica: maleabilidade de caráter, exuberância de temperamento, espírito aberto às correntes da cultura européia, ecletismo, ironia e equilíbrio estético. Difícil de imitar. O poeta Afonso Lopes Vieira assim o admirava e definia: “Genial muito mais pelo que descobriu e indicou do que pelo que realizou”. Mas ninguém melhor que Ramalho Ortigão para descrever com perfeição o fascínio que Garrett exerceu sobre seus contemporâneos: “Garrett aparece como um mensageiro do novo espírito europeu. Foi ele que, de chapéu branco, calças de quadrados, gravata encarnada, monóculo no olho, um charuto nos beiços e uma chibata em punho, vergastou as orelhas do velho mundo português e o obrigou a abrir a primeira garrafa de champanhe. Nos não éramos todos senão uns pobres velhotes, uns ginjas, uns chechés. Foi ele o primeiro que, por meio dos seus livros, nos deitou nos copos e nos fez beber o vinho da mocidade. E dói depois de reconfortados por esse generoso licor de poesia, que nós aprendemos a estimar a beleza, a amar a liberdade, a compreender as artes e a querer o progresso”. Gostaria
de finalizar, brindando e saboreando com os amigos um cálice
do licor generoso da poesia de Garrett que é, para mim, uma terna
e profunda lição de vida: As Minhas Asas Brancas. AS MINHAS ASAS BRANCAS Eu
tinha umas asas brancas Eram
brancas, brancas, brancas, Veio
a cobiça da terra, Veio
a ambição co’as grandezas
Porque as minhas asas brancas, Mas
n’uma noite sem lua Deixei
descair os olhos E
as minhas asas brancas, E
as minhas asas brancas,
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